Weird Sea Monsters Monstros Lendários

Tipos e temas

Serpentes lendárias

A serpente é a criatura mais difundida do imaginário mundial. Este ranking compara suas versões documentadas em treze tradições.

13 posições Publicado em 24 de março de 2026 Revisado em 11 de setembro de 2026

Não há criatura mais difundida. A serpente lendária aparece em praticamente todas as tradições documentadas, e com funções extraordinariamente variadas: adversária cósmica, guardiã de tesouro, reguladora das chuvas, ancestral de linhagens, objeto de devoção.

Esse é justamente o ponto mais interessante do conjunto. Comparar a serpente que retém as águas no Rig Veda com o dragão chinês que as concede mostra que a forma é comum, mas o significado não é.

Pesos deste ranking

Relevância cultural
25%
Antiguidade dos registros
20%
Influência histórica
20%
Alcance geográfico
20%
Presença nas narrativas
15%

O alcance geográfico pesa mais que o habitual, porque a difusão é o traço central deste recorte. A influência histórica considera o rastro deixado em tradições e vocabulários posteriores.

Como as notas são calculadas

Leitura das notas: As notas são avaliações editoriais comparativas sobre a documentação disponível. Não são medições, não expressam tamanho, idade, força ou perigo, e não devem ser lidas como dados científicos.

As 13 posições

A ordem resulta das notas ponderadas. Em caso de empate, a posição mais alta fica com a criatura de registro mais antigo.

1º lugar: Long

Também grafado dragão chinês e lung

Chinesa AéreoÁguas interiores II milênio a.C. (iconografia)

Criatura serpentina chinesa associada à água, à chuva e à autoridade imperial, de caráter benéfico e função cosmológica.

Motivo da colocação

Provavelmente a criatura lendária com maior presença material contínua no mundo, com iconografia de milênios, regulação jurídica da imagem e festivais praticados até hoje.

Origem e documentação

Presente em jades e bronzes muito antigos e depois em todo o corpus escrito chinês. Diferencia-se radicalmente do dragão europeu: não é adversário a ser morto, mas força reguladora das águas e emblema legítimo do poder.

Narrativa principal

As fontes o associam ao controle das chuvas, aos rios e ao mar, com rituais destinados a solicitar sua ação em períodos de seca. Na estrutura imperial, o número de garras e o uso da imagem eram regulados por norma, e usurpar esses emblemas constituía ofensa. Sua importância é, portanto, tanto religiosa quanto jurídica.

Variantes e divergências entre fontes

  • A tradição distingue vários tipos, associados a céu, terra, mar e tesouros ocultos.
  • A composição do corpo é descrita por listas de partes de animais diversos, com variação entre fontes.
  • Versões coreana, japonesa e vietnamita apresentam diferenças formais reconhecíveis.

Recepção posterior

É provavelmente a criatura lendária com maior presença material contínua no mundo, de arquitetura a festivais praticados até hoje.

Fontes desta posição

  • Anônimo, Shanhaijing (Clássico das Montanhas e dos Mares), The Classic of Mountains and Seas, tradução de Anne Birrell, Penguin Classics, 1999. Compilação do período Zhou ao Han.
  • Lihui Yang e Deming An, Handbook of Chinese Mythology, ABC-CLIO, 2005.
  • Richard E. Strassberg, A Chinese Bestiary: Strange Creatures from the Guideways through Mountains and Seas, University of California Press, 2002.
  • The British Museum, Collection online, acervo digital, consulta contínua. Acervo

2º lugar: Nāgas

Também grafado naga e nagas

Indiana Águas interioresSubterrâneoMarítimo I milênio a.C. – presente

Seres serpentinos das tradições indianas, guardiões de águas, tesouros e umbrais, com culto ativo até hoje.

Motivo da colocação

Serpentes que são objeto de devoção, não de combate, com culto ativo, festivais próprios e presença física em templos de vários países.

Origem e documentação

Presentes nas épicas, nos Purāṇas e na iconografia arquitetônica de toda a Índia e do Sudeste Asiático. Diferentemente das serpentes monstruosas do Ocidente, são objeto de devoção, com santuários e festivais próprios.

Narrativa principal

Aparecem como guardiões de reservatórios e de tesouros, protetores de figuras sagradas e habitantes de um reino subterrâneo. Em episódios budistas, uma dessas criaturas protege o Buda com o próprio corpo durante uma tempestade. A ambivalência é constante: podem punir e podem proteger, conforme o tratamento recebido.

Variantes e divergências entre fontes

  • Iconografias diferem entre Índia, Camboja, Tailândia e Indonésia.
  • Algumas tradições os apresentam com múltiplas cabeças; outras, com forma inteiramente humana.
  • A relação com o culto de fontes e reservatórios varia regionalmente.

Recepção posterior

A arquitetura de templos do Sudeste Asiático incorpora essas criaturas em escadarias, balaustradas e pontes, tornando-as presença material cotidiana.

Fontes desta posição

  • Anônimo, Mahābhārata, tradução de J. A. B. van Buitenen, University of Chicago Press, 1973–1978.
  • Vālmīki, Rāmāyaṇa, The Rāmāyaṇa of Vālmīki, editado por Robert P. Goldman, Princeton University Press, 1984–2017.
  • Anônimo, Bhāgavata Purāṇa, edições e traduções acadêmicas do corpus purânico, séc. IX–X (redação).

3º lugar: Quetzalcóatl

Também grafado serpente emplumada

Mesoamericana e andina AéreoTerrestre I milênio a.C. – séc. XVI

Serpente emplumada mesoamericana, uma das figuras com maior continuidade iconográfica documentada nas Américas.

Motivo da colocação

Mais de um milênio de continuidade iconográfica documentada, com templos inteiros dedicados e fachadas cobertas de cabeças serpentinas.

Origem e documentação

A imagem da serpente emplumada aparece em contextos arqueológicos mesoamericanos por mais de um milênio, de construções monumentais a cerâmica e códices. Os textos que a descrevem em detalhe são coloniais, o que impõe cautela interpretativa.

Narrativa principal

As fontes coloniais associam a figura à criação, ao vento, ao conhecimento e à ordem civilizatória, além de narrativas sobre partida e retorno. Templos inteiros foram dedicados a ela, com fachadas cobertas de cabeças serpentinas, o que faz dessa criatura um dos casos mais bem documentados materialmente do acervo mundial.

Variantes e divergências entre fontes

  • Aparece sob nomes distintos em diferentes línguas e regiões mesoamericanas.
  • A associação com um governante histórico de Tula é tema de debate acadêmico.
  • Interpretações coloniais introduzem elementos ausentes das fontes pré-colombianas.

Fontes desta posição

  • Bernardino de Sahagún, Códice Florentino (Historia general de las cosas de Nueva España), Biblioteca Medicea Laurenziana, Florença; edições fac-similares, séc. XVI.
  • Mary Miller e Karl Taube, An Illustrated Dictionary of the Gods and Symbols of Ancient Mexico and the Maya, Thames & Hudson, 1993.
  • Anônimo, Chilam Balam de Chumayel, edições e traduções acadêmicas, séc. XVIII (manuscrito).

4º lugar: Leviatã

Também grafado Liwyatan

Levantina Marítimo I milênio a.C.

Grande criatura marinha da poesia hebraica, imagem do caso extremo do incontrolável e do caos submetido à divindade.

Motivo da colocação

Poucas menções nas fontes e o maior desdobramento posterior de todas: três tradições religiosas de alcance mundial e o vocabulário político moderno.

Origem e documentação

Aparece em passagens poéticas do corpus hebraico e tem paralelos claros no repertório ugarítico, em que uma serpente marinha de vários nomes é combatida por divindades. Os estudos bíblicos tratam essas correspondências como evidência de um fundo cananeu comum.

Narrativa principal

No livro de Jó, a criatura é descrita em longa passagem que enfatiza a impossibilidade de capturá-la ou domá-la, argumento usado para demarcar o limite do poder humano. Em Isaías e nos Salmos, aparece em contexto de vitória divina sobre o mar. O registro é poético do início ao fim, e assim deve ser lido.

Variantes e divergências entre fontes

  • Interpretações judaicas posteriores desenvolvem tradições sobre um banquete final envolvendo a criatura.
  • Traduções antigas e modernas divergem ao verter o termo, o que gerou identificações diversas.
  • Textos ugaríticos apresentam figura equivalente com outro nome.

Recepção posterior

O nome foi adotado na filosofia política moderna como título e metáfora de Estado soberano, o que ampliou enormemente sua circulação fora do contexto religioso.

Fontes desta posição

  • Anônimo, Livro de Jó, Bíblia de Jerusalém, Paulus, 2002. Texto hebraico de datação discutida.
  • Anônimo, Livro de Isaías, Bíblia de Jerusalém, Paulus, 2002. Corpus profético hebraico.
  • Simon B. Parker (ed.), Ugaritic Narrative Poetry, Society of Biblical Literature, 1997. Tábuas de Ugarit, II milênio a.C..

5º lugar: Tiamat

Também grafado Tiāmat

Mesopotâmica Marítimo II milênio a.C.

Personificação das águas salgadas primordiais no poema babilônico da criação, vencida por Marduk em combate que origina o mundo organizado.

Motivo da colocação

A mais antiga adversária aquática com texto completo preservado, e a que deixou o rastro comparativo mais discutido sobre tradições vizinhas.

Origem e documentação

Figura central do Enuma Elish, recitado ritualmente na Babilônia. Representa o mar primordial anterior a qualquer ordem, e sua derrota funda a ordem cósmica e legitima a supremacia de Marduk.

Narrativa principal

Depois da morte de seu consorte, Tiamat prepara um exército de criaturas monstruosas e escolhe Kingu como comandante. Marduk aceita o desafio em troca da soberania entre os deuses, aprisiona-a em uma rede de ventos, dispara-lhe uma flecha e a divide, formando com as partes o céu e a terra. O relato é o mais antigo grande combate contra criatura aquática de que há registro escrito completo.

Variantes e divergências entre fontes

  • Versões e cópias do poema apresentam diferenças na lista das criaturas que ela cria.
  • A leitura da figura como dragão é interpretação posterior; o texto a descreve de forma mais ambígua.

Recepção posterior

Serviu de base para estudos comparados sobre combates contra serpentes marinhas em textos ugaríticos e hebraicos.

Fontes desta posição

  • Stephanie Dalley (ed.), Myths from Mesopotamia, Oxford World’s Classics, Oxford University Press, 2000. Inclui Enuma Elish, Atrahasis e Anzu.
  • Jeremy Black e Anthony Green, Gods, Demons and Symbols of Ancient Mesopotamia, British Museum Press, 1992.
  • The British Museum, Collection online, acervo digital, consulta contínua. Acervo
  • Musée du Louvre, Collections, acervo digital, consulta contínua. Acervo

6º lugar: Hidra de Lerna

Também grafado Hydra

Greco-romana Águas interioresTerrestre Séc. VII a.C.

Serpente de múltiplas cabeças associada ao pântano de Lerna, cuja característica narrativa central é a regeneração das cabeças cortadas.

Motivo da colocação

A regeneração das cabeças tornou-se metáfora política e administrativa corrente em várias línguas, sustentada por iconografia grega arcaica abundante.

Origem e documentação

Hesíodo a inclui entre a progênie de Equidna e Tífon. O combate contra Héracles figura entre os episódios mais representados na cerâmica grega arcaica, com atestação iconográfica anterior a boa parte dos textos conservados.

Narrativa principal

O segundo trabalho de Héracles consiste em matar a criatura no pântano de Lerna. Como cada cabeça decepada é substituída por outras, o herói recorre ao auxílio de Iolau, que cauteriza os cotos. A tradição acrescenta que uma das cabeças era imortal e foi enterrada sob uma pedra.

Variantes e divergências entre fontes

  • O número de cabeças varia de nove a cem segundo a fonte; não há versão canônica.
  • Algumas fontes incluem um caranguejo enorme enviado para atrapalhar Héracles no combate.
  • Em certas versões, Euristeu recusa validar o trabalho por causa da ajuda de Iolau.

Recepção posterior

A imagem da cabeça que se multiplica ao ser cortada tornou-se metáfora política e administrativa corrente em várias línguas.

Fontes desta posição

  • Hesíodo, Teogonia, tradução de Jaa Torrano, Iluminuras, 2003. Composição atribuída ao século VII a.C..
  • Pseudo-Apolodoro, Biblioteca, The Library of Greek Mythology, tradução de Robin Hard, Oxford World’s Classics, 1997. Compilação de época imperial romana.
  • Ovídio, Metamorfoses, tradução de Domingos Lucas Dias, Editora 34, 2017. Concluída por volta do ano 8 d.C..
  • Timothy Gantz, Early Greek Myth: A Guide to Literary and Artistic Sources, Johns Hopkins University Press, 1993.
  • Daniel Ogden, Drakōn: Dragon Myth and Serpent Cult in the Greek and Roman Worlds, Oxford University Press, 2013.

7º lugar: Vṛtra

Também grafado Vritra

Indiana TerrestreÁguas interiores II milênio a.C.

Figura serpentina do Rig Veda que retém as águas, combatida e vencida por Indra em um dos episódios mais antigos do gênero.

Motivo da colocação

Um dos combates mais antigos registrados contra criatura que retém as águas, peça central nos estudos comparados indo-europeus.

Origem e documentação

Um dos combates mais antigos registrados por escrito contra criatura que bloqueia recursos vitais. O Rig Veda retorna ao tema repetidamente, o que indica sua centralidade ritual.

Narrativa principal

A criatura mantém as águas retidas, e Indra, fortalecido pela oferenda ritual, rompe o obstáculo com sua arma, liberando os rios. A leitura tradicional associa o episódio ao ciclo das monções e à passagem da seca à abundância, o que dá ao combate função agrícola e calendárica.

Variantes e divergências entre fontes

  • Hinos distintos apresentam detalhes divergentes do combate.
  • Textos posteriores desenvolvem a figura em chave narrativa mais elaborada.

Recepção posterior

É peça central nos estudos comparados sobre combates contra serpentes nas tradições indo-europeias.

Fontes desta posição

  • Anônimo, Rig Veda, The Rig Veda, tradução de Wendy Doniger, Penguin Classics, 1981. II milênio a.C..
  • Anônimo, Mahābhārata, tradução de J. A. B. van Buitenen, University of Chicago Press, 1973–1978.

8º lugar: Jörmungandr

Também grafado Serpente de Midgard e Miðgarðsormr

Nórdica Marítimo Séc. XIII (registro)

Serpente marinha que, na cosmologia nórdica, envolve o mundo habitado mordendo a própria cauda e está destinada a enfrentar Thor no fim dos tempos.

Motivo da colocação

Serpente que circunda o mundo mordendo a própria cauda, com função cosmológica e dois episódios narrativos entre os mais lembrados da tradição europeia.

Origem e documentação

Filha de Loki segundo as Eddas, é lançada ao mar pelos deuses e cresce até circundar a terra. A imagem da serpente que morde a própria cauda no oceano circundante é um dos elementos estruturais da cosmologia nórdica registrada.

Narrativa principal

Duas cenas a definem. Na pescaria de Thor, o deus a fisga com cabeça de boi e quase a traz à superfície, sendo interrompido pelo gigante Hymir. No Ragnarök, os dois se enfrentam diretamente: Thor a mata e morre em seguida pelo veneno. Há também o episódio em que Thor, sem saber, tenta erguer a serpente disfarçada de gato.

Variantes e divergências entre fontes

  • A Edda em Prosa e a Edda Poética divergem em detalhes da pescaria de Thor.
  • Pedras rúnicas e esculturas medievais do norte europeu foram interpretadas como representações dessa pescaria.

Recepção posterior

É provavelmente a serpente marinha mais reconhecível da mitologia europeia fora do repertório greco-romano.

Fontes desta posição

  • Anônimo, Edda Poética, The Poetic Edda, tradução de Carolyne Larrington, Oxford World’s Classics, 2014. Codex Regius, séc. XIII.
  • Snorri Sturluson, Edda em Prosa, The Prose Edda, tradução de Jesse L. Byock, Penguin Classics, 2005. Islândia, c. 1220.
  • John Lindow, Norse Mythology: A Guide to Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, Oxford University Press, 2001.
  • Rudolf Simek, Dictionary of Northern Mythology, D. S. Brewer, 1993.

9º lugar: Apep

Também grafado Apófis e Apophis

Egípcia SubterrâneoÁguas interiores II milênio a.C.

Serpente colossal que ameaça a barca solar em sua travessia noturna, adversária permanente da ordem cósmica egípcia.

Motivo da colocação

Quase dois milênios de registro contínuo e a formulação mais antiga da ideia de adversário cíclico que nunca é definitivamente destruído.

Origem e documentação

Presente em textos funerários do Reino Médio em diante e em rituais de templo destinados a enfraquecê-la. Sua característica mais notável é a permanência: nunca é definitivamente destruída, apenas repelida a cada noite.

Narrativa principal

A cada noite, enquanto o sol atravessa o mundo inferior, a serpente tenta deter a barca engolindo as águas ou bloqueando a passagem. Divindades e mortos justificados participam da defesa, e o combate se repete indefinidamente. Papiros rituais prescrevem fórmulas e atos simbólicos para auxiliar essa contenção.

Variantes e divergências entre fontes

  • Vinhetas de papiros mostram a serpente atravessada por facas ou contida por cordas.
  • Alguns textos a associam à origem das tempestades de areia e dos eclipses.

Recepção posterior

É uma das mais antigas formulações da ideia de adversário cósmico que retorna sempre, sem derrota final.

Fontes desta posição

  • Anônimo, O Livro dos Mortos do Antigo Egito, The Ancient Egyptian Book of the Dead, tradução de Raymond O. Faulkner, British Museum Press, 1985. Compilações do Novo Império.
  • Geraldine Pinch, Handbook of Egyptian Mythology, ABC-CLIO, 2002.
  • Richard H. Wilkinson, The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt, Thames & Hudson, 2003.
  • The British Museum, Collection online, acervo digital, consulta contínua. Acervo

10º lugar: Aži Dahāka

Também grafado Zahhāk e Dahāg

Irano-árabe Terrestre Séc. VI a.C. – XI d.C.

Figura serpentina de três cabeças da tradição iraniana, que na épica persa se torna rei tirano com serpentes brotando dos ombros.

Motivo da colocação

Transformação singular de criatura em figura política: a serpente de três cabeças do Avesta torna-se, na épica persa, um rei tirano contido dentro de uma montanha.

Origem e documentação

Aparece no Avesta como criatura de três bocas e três cabeças e, séculos depois, é reelaborada no Shahnameh como soberano usurpador. A transformação de criatura em figura política é uma das mais notáveis do repertório mundial.

Narrativa principal

Na versão épica, o usurpador é enganado por forças maléficas e passa a ter duas serpentes nos ombros, alimentadas com cérebros humanos. Um ferreiro lidera a revolta popular, e o tirano é derrotado e acorrentado dentro de uma montanha, onde permanecerá até o fim dos tempos. Não é morto: é contido.

Variantes e divergências entre fontes

  • O Avesta e o Shahnameh apresentam naturezas distintas para a figura.
  • A tradição zoroastriana descreve sua libertação e derrota definitiva no fim do tempo.

Recepção posterior

O episódio do ferreiro revoltoso tornou-se símbolo político duradouro no Irã.

Fontes desta posição

  • Anônimo, Avesta, tradução de James Darmesteter, Sacred Books of the East, Oxford, 1880–1887. Corpus zoroastriano.
  • Anônimo, Bundahishn, compilação zoroastriana em pálavi, edições modernas, séc. IX (redação).
  • Ferdowsi, Shahnameh (O Livro dos Reis), tradução de Dick Davis, Penguin Classics, 2006. Irã, c. 1010.

11º lugar: Fáfnir

Também grafado Fafner

Nórdica Terrestre Séc. XIII (registro)

Figura que se transforma em serpente ou dragão para guardar um tesouro maldito e é morta por Sigurd.

Motivo da colocação

Raro caso de criatura com origem explicitamente moral, e cenas de seu combate aparecem esculpidas em portais de igrejas medievais escandinavas.

Origem e documentação

Pertence ao ciclo heroico dos Volsungos, com paralelos na matéria germânica continental. Sua metamorfose por cobiça é um dos raros casos nórdicos em que o monstro tem origem explicitamente moral.

Narrativa principal

Depois de matar o pai para ficar com o ouro, transforma-se em criatura serpentina e passa a vigiar o tesouro numa charneca. Sigurd, aconselhado por Regin, cava uma vala no caminho da criatura e a fere por baixo. Ao provar o sangue, passa a entender a linguagem das aves — detalhe que redireciona toda a narrativa seguinte.

Variantes e divergências entre fontes

  • A Saga dos Volsungos e os poemas eddicos diferem em detalhes do combate e do diálogo final.
  • As tradições germânicas continentais dão outro nome e outro contexto ao mesmo episódio.

Recepção posterior

Portais de igrejas medievais na Noruega e na Suécia trazem cenas desse combate, exemplo notável de motivo pré-cristão em arquitetura cristã.

Fontes desta posição

  • Anônimo, Edda Poética, The Poetic Edda, tradução de Carolyne Larrington, Oxford World’s Classics, 2014. Codex Regius, séc. XIII.
  • Snorri Sturluson, Edda em Prosa, The Prose Edda, tradução de Jesse L. Byock, Penguin Classics, 2005. Islândia, c. 1220.
  • Rudolf Simek, Dictionary of Northern Mythology, D. S. Brewer, 1993.
  • John Lindow, Norse Mythology: A Guide to Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, Oxford University Press, 2001.

12º lugar: Zmey Gorynych

Também grafado Zmei Gorynich

Eslava AéreoTerrestre Séc. XIX (coleta)

Serpente de várias cabeças do folclore eslavo oriental, adversária típica dos heróis das bylinas, capaz de voar e de cuspir fogo.

Motivo da colocação

Adversário padrão do ciclo heroico eslavo oriental, com múltiplas cabeças, voo, fogo e o problema narrativo da regeneração.

Origem e documentação

Documentada nas coleções de contos e nos poemas heroicos russos registrados no século XIX, embora as narrativas circulassem oralmente muito antes. É o adversário padrão do ciclo heroico eslavo oriental.

Narrativa principal

As narrativas seguem padrão reconhecível: a criatura exige tributos ou rapta uma princesa, o herói viaja até seu covil e a decapita, enfrentando a regeneração das cabeças. O detalhe recorrente é o número ímpar de cabeças e a necessidade de impedir que voltem a crescer, resolvido com fogo ou com a ajuda de um cavalo.

Variantes e divergências entre fontes

  • O número de cabeças varia entre três, seis, nove e doze.
  • Diferentes heróis do ciclo são apresentados como vencedores.
  • Algumas versões a ligam a um rio ou a uma ponte específica.

Fontes desta posição

  • Aleksandr Afanasiev, Contos Populares Russos, Narodnye russkie skazki, coletânea original, 1855–1863.
  • Mike Dixon-Kennedy, Encyclopedia of Russian and Slavic Myth and Legend, ABC-CLIO, 1998.
  • Linda J. Ivanits, Russian Folk Belief, M. E. Sharpe, 1989.

13º lugar: Cobra Grande

Também grafado Boiúna, Mboiúna e Honorato

Brasileira Águas interiores Séc. XIX

Serpente colossal dos rios amazônicos que, nas narrativas, dorme sob barrancos, abre canais e às vezes é confundida com embarcação iluminada.

Motivo da colocação

A serpente lendária mais documentada das Américas em variação regional, ligada à formação de canais e ao desbarrancamento de margens na Amazônia.

Origem e documentação

Presente em narrativas indígenas e ribeirinhas de toda a bacia amazônica, com documentação desde o século XIX. É a criatura brasileira com maior variação regional documentada.

Narrativa principal

As narrativas atribuem a ela a formação de furos e canais, o desbarrancamento de margens e o afundamento de embarcações. Um motivo recorrente é o da serpente que à noite exibe luzes, sendo tomada por navio. No ciclo de Honorato, uma criança encantada em serpente pode ser desencantada sob condições que quase nunca se cumprem.

Variantes e divergências entre fontes

  • Nomes e atributos variam por sub-região: Boiúna, Cobra Norato, Cobra Honorato.
  • Em algumas versões é protetora do rio; em outras, ameaça.
  • A associação com fenômenos geológicos de erosão fluvial é registrada por diversos pesquisadores.

Recepção posterior

O ciclo de Cobra Norato entrou na literatura brasileira moderna por meio da poesia, ampliando o alcance da figura.

Fontes desta posição

  • José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, 1876. Compilação de narrativas em nheengatu com tradução.
  • João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense, Rio de Janeiro, 1890.
  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).
Quadro comparativo

Todas as notas em uma tabela

A mesma informação das posições acima, reunida para leitura rápida. A última coluna é a média ponderada pelos pesos declarados.

Notas por critério de cada posição do ranking
# Criatura Relevância Antiguidade Influência Alcance Narrativas Índice
Long 10,0 10,0 10,0 9,5 8,0 96,0
Nāgas 10,0 9,0 9,5 9,0 8,5 92,8
Quetzalcóatl 10,0 9,5 9,5 7,5 8,5 90,8
Leviatã 9,5 9,0 10,0 9,5 6,0 89,8
Tiamat 9,5 10,0 9,5 6,5 9,0 89,3
Hidra de Lerna 9,0 9,5 9,5 6,5 8,5 86,3
Vṛtra 9,0 10,0 9,0 6,5 8,0 85,5
Jörmungandr 9,5 7,0 9,0 7,0 9,5 84,0
Apep 9,5 9,5 9,0 5,5 8,0 83,8
10º Aži Dahāka 9,0 8,5 8,5 6,5 8,5 82,3
11º Fáfnir 8,5 8,0 9,0 6,5 9,0 81,8
12º Zmey Gorynych 9,0 5,0 8,0 7,0 9,5 76,8
13º Cobra Grande 9,5 5,0 7,0 6,5 9,0 74,3
Bibliografia

Fontes citadas neste ranking

Reunião de todas as obras indicadas nas posições acima. A lista completa do acervo está em fontes.

  • Aleksandr Afanasiev, Contos Populares Russos, Narodnye russkie skazki, coletânea original, 1855–1863.
  • Anônimo, Avesta, tradução de James Darmesteter, Sacred Books of the East, Oxford, 1880–1887. Corpus zoroastriano.
  • Anônimo, Bhāgavata Purāṇa, edições e traduções acadêmicas do corpus purânico, séc. IX–X (redação).
  • Anônimo, Bundahishn, compilação zoroastriana em pálavi, edições modernas, séc. IX (redação).
  • Anônimo, Chilam Balam de Chumayel, edições e traduções acadêmicas, séc. XVIII (manuscrito).
  • Anônimo, Edda Poética, The Poetic Edda, tradução de Carolyne Larrington, Oxford World’s Classics, 2014. Codex Regius, séc. XIII.
  • Anônimo, Livro de Isaías, Bíblia de Jerusalém, Paulus, 2002. Corpus profético hebraico.
  • Anônimo, Livro de Jó, Bíblia de Jerusalém, Paulus, 2002. Texto hebraico de datação discutida.
  • Anônimo, Mahābhārata, tradução de J. A. B. van Buitenen, University of Chicago Press, 1973–1978.
  • Anônimo, O Livro dos Mortos do Antigo Egito, The Ancient Egyptian Book of the Dead, tradução de Raymond O. Faulkner, British Museum Press, 1985. Compilações do Novo Império.
  • Anônimo, Rig Veda, The Rig Veda, tradução de Wendy Doniger, Penguin Classics, 1981. II milênio a.C..
  • Anônimo, Shanhaijing (Clássico das Montanhas e dos Mares), The Classic of Mountains and Seas, tradução de Anne Birrell, Penguin Classics, 1999. Compilação do período Zhou ao Han.
  • Bernardino de Sahagún, Códice Florentino (Historia general de las cosas de Nueva España), Biblioteca Medicea Laurenziana, Florença; edições fac-similares, séc. XVI.
  • Daniel Ogden, Drakōn: Dragon Myth and Serpent Cult in the Greek and Roman Worlds, Oxford University Press, 2013.
  • Ferdowsi, Shahnameh (O Livro dos Reis), tradução de Dick Davis, Penguin Classics, 2006. Irã, c. 1010.
  • Geraldine Pinch, Handbook of Egyptian Mythology, ABC-CLIO, 2002.
  • Hesíodo, Teogonia, tradução de Jaa Torrano, Iluminuras, 2003. Composição atribuída ao século VII a.C..
  • Jeremy Black e Anthony Green, Gods, Demons and Symbols of Ancient Mesopotamia, British Museum Press, 1992.
  • John Lindow, Norse Mythology: A Guide to Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, Oxford University Press, 2001.
  • José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, 1876. Compilação de narrativas em nheengatu com tradução.
  • João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense, Rio de Janeiro, 1890.
  • Lihui Yang e Deming An, Handbook of Chinese Mythology, ABC-CLIO, 2005.
  • Linda J. Ivanits, Russian Folk Belief, M. E. Sharpe, 1989.
  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).
  • Mary Miller e Karl Taube, An Illustrated Dictionary of the Gods and Symbols of Ancient Mexico and the Maya, Thames & Hudson, 1993.
  • Mike Dixon-Kennedy, Encyclopedia of Russian and Slavic Myth and Legend, ABC-CLIO, 1998.
  • Musée du Louvre, Collections, acervo digital, consulta contínua. Acervo
  • Ovídio, Metamorfoses, tradução de Domingos Lucas Dias, Editora 34, 2017. Concluída por volta do ano 8 d.C..
  • Pseudo-Apolodoro, Biblioteca, The Library of Greek Mythology, tradução de Robin Hard, Oxford World’s Classics, 1997. Compilação de época imperial romana.
  • Richard E. Strassberg, A Chinese Bestiary: Strange Creatures from the Guideways through Mountains and Seas, University of California Press, 2002.
  • Richard H. Wilkinson, The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt, Thames & Hudson, 2003.
  • Rudolf Simek, Dictionary of Northern Mythology, D. S. Brewer, 1993.
  • Simon B. Parker (ed.), Ugaritic Narrative Poetry, Society of Biblical Literature, 1997. Tábuas de Ugarit, II milênio a.C..
  • Snorri Sturluson, Edda em Prosa, The Prose Edda, tradução de Jesse L. Byock, Penguin Classics, 2005. Islândia, c. 1220.
  • Stephanie Dalley (ed.), Myths from Mesopotamia, Oxford World’s Classics, Oxford University Press, 2000. Inclui Enuma Elish, Atrahasis e Anzu.
  • The British Museum, Collection online, acervo digital, consulta contínua. Acervo
  • Timothy Gantz, Early Greek Myth: A Guide to Literary and Artistic Sources, Johns Hopkins University Press, 1993.
  • Vālmīki, Rāmāyaṇa, The Rāmāyaṇa of Vālmīki, editado por Robert P. Goldman, Princeton University Press, 1984–2017.
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