Weird Sea Monsters Monstros Lendários

Tipos e temas

Criaturas lendárias do Brasil

O repertório brasileiro completo: indígena, africano e ibérico, documentado desde o século XVI até a pesquisa folclórica moderna.

16 posições Publicado em 15 de fevereiro de 2026 Revisado em 14 de setembro de 2026

O Brasil aparece na documentação de criaturas lendárias desde o século XVI, em relatos de Anchieta, Gândavo, Léry e Staden. No século XIX, Couto de Magalhães e Barbosa Rodrigues registraram narrativas amazônicas, muitas em nheengatu, com tradução. A sistematização maior veio com Luís da Câmara Cascudo.

A característica mais marcante desse material é a variação regional documentada. Um mesmo nome cobre criaturas diferentes no Pará e no Rio Grande do Sul, e este ranking trata essa variação como informação, não como contradição.

Pesos deste ranking

Relevância cultural
30%
Presença nas narrativas
20%
Alcance geográfico
20%
Antiguidade dos registros
15%
Influência histórica
15%

A relevância cultural recebe o peso maior porque são tradições vivas com função social identificável. O alcance geográfico é medido dentro do território brasileiro. A antiguidade beneficia as figuras com menção em fontes coloniais do século XVI.

Como as notas são calculadas

Leitura das notas: As notas são avaliações editoriais comparativas sobre a documentação disponível. Não são medições, não expressam tamanho, idade, força ou perigo, e não devem ser lidas como dados científicos.

As 16 posições

A ordem resulta das notas ponderadas. Em caso de empate, a posição mais alta fica com a criatura de registro mais antigo.

1º lugar: Curupira

Também grafado Currupira

Brasileira Terrestre Séc. XVI (menção)

Guardião da floresta brasileira, descrito com pés voltados para trás, que desorienta caçadores e pune o abuso na caça.

Motivo da colocação

Menção quinhentista em Anchieta, distribuição nacional e um código de conduta sobre a caça transmitido em forma de narrativa, com o motivo do rastro invertido.

Origem e documentação

Anchieta menciona no século XVI um ser temido pelos indígenas nas matas, referência considerada a mais antiga associada a essa figura. A documentação detalhada vem da pesquisa folclórica dos séculos XIX e XX.

Narrativa principal

O motivo central é o rastro invertido: quem segue as pegadas anda no sentido contrário e se perde. As narrativas associam a criatura à punição de quem caça fêmeas com filhotes, mata sem necessidade ou desperdiça a carne — um código de conduta sobre o uso da floresta transmitido em forma de história.

Variantes e divergências entre fontes

  • Aparece como criança, como ser pequeno de cabelos vermelhos ou como figura indistinta, segundo a região.
  • Em algumas áreas se confunde com o Caipora; em outras, são figuras distintas.
  • Há variantes que admitem acordo com caçadores mediante oferta de tabaco ou cachaça.

Fontes desta posição

  • José de Anchieta, Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões, edições da Academia Brasileira de Letras e da Itatiaia, séc. XVI.
  • José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, 1876. Compilação de narrativas em nheengatu com tradução.
  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).

2º lugar: Saci

Também grafado Saci-pererê e Saci-trique

Brasileira TerrestreAéreo Séc. XIX

Figura de uma perna só, associada a redemoinhos de vento e a pequenas desordens domésticas e de estrada.

Motivo da colocação

Uma das figuras mais reconhecíveis do folclore brasileiro no espaço público e escolar, com repertório de captura e proteção doméstica bem documentado.

Origem e documentação

Resultado de confluência entre elementos indígenas, africanos e ibéricos, documentada pela pesquisa folclórica. Cascudo discute em detalhe a formação da figura e suas camadas.

Narrativa principal

As narrativas o descrevem viajando em redemoinhos, embaraçando crinas de cavalos, apagando fogo, desviando objetos e assobiando à noite. Os métodos de captura registrados — peneira sobre o redemoinho, garrafa, nó em rosário — formam um repertório de proteção doméstica bem documentado.

Variantes e divergências entre fontes

  • O gorro vermelho é elemento de versões mais recentes.
  • Em algumas regiões é figura assustadora; em outras, apenas travessa.
  • Nomes locais variam consideravelmente entre estados.

Recepção posterior

Tornou-se uma das figuras mais reconhecíveis do folclore brasileiro no espaço público e escolar.

Fontes desta posição

  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).

3º lugar: Boitatá

Também grafado Baitatá, Batatão e Mbaitatá

Brasileira TerrestreÁguas interiores Séc. XVI (menção)

Serpente de fogo do folclore brasileiro, descrita como facho luminoso que percorre campos e atravessa caminhos à noite.

Motivo da colocação

Menção quinhentista em Anchieta e presença do Sul ao Nordeste, com funções que alternam entre proteção dos campos e ameaça de estrada.

Origem e documentação

Anchieta registra, no século XVI, uma figura luminosa temida pelos indígenas, comumente identificada como a base dessa tradição. O nome é interpretado a partir do tupi como "cobra de fogo".

Narrativa principal

As narrativas a descrevem como fogo em movimento que persegue quem anda sozinho à noite ou que protege os campos de quem os queima. Em várias regiões é associada a fenômenos luminosos observados em áreas alagadas, leitura que os pesquisadores folclóricos registraram desde cedo.

Variantes e divergências entre fontes

  • No Sul aparece sobretudo como fogo protetor dos campos; no Nordeste, como ameaça de estrada.
  • A forma varia entre serpente, tição e simples clarão sem corpo definido.

Fontes desta posição

  • José de Anchieta, Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões, edições da Academia Brasileira de Letras e da Itatiaia, séc. XVI.
  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).

4º lugar: Cobra Grande

Também grafado Boiúna, Mboiúna e Honorato

Brasileira Águas interiores Séc. XIX

Serpente colossal dos rios amazônicos que, nas narrativas, dorme sob barrancos, abre canais e às vezes é confundida com embarcação iluminada.

Motivo da colocação

A criatura brasileira com maior variação regional documentada, ligada à formação de canais e ao desbarrancamento de margens na Amazônia.

Origem e documentação

Presente em narrativas indígenas e ribeirinhas de toda a bacia amazônica, com documentação desde o século XIX. É a criatura brasileira com maior variação regional documentada.

Narrativa principal

As narrativas atribuem a ela a formação de furos e canais, o desbarrancamento de margens e o afundamento de embarcações. Um motivo recorrente é o da serpente que à noite exibe luzes, sendo tomada por navio. No ciclo de Honorato, uma criança encantada em serpente pode ser desencantada sob condições que quase nunca se cumprem.

Variantes e divergências entre fontes

  • Nomes e atributos variam por sub-região: Boiúna, Cobra Norato, Cobra Honorato.
  • Em algumas versões é protetora do rio; em outras, ameaça.
  • A associação com fenômenos geológicos de erosão fluvial é registrada por diversos pesquisadores.

Recepção posterior

O ciclo de Cobra Norato entrou na literatura brasileira moderna por meio da poesia, ampliando o alcance da figura.

Fontes desta posição

  • José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, 1876. Compilação de narrativas em nheengatu com tradução.
  • João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense, Rio de Janeiro, 1890.
  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).

5º lugar: Iara

Também grafado Uiara e mãe-d’água

Brasileira Águas interiores Séc. XIX

Figura feminina das águas doces brasileiras que atrai pessoas ao fundo dos rios, resultado do encontro entre tradições indígenas e a sereia europeia.

Motivo da colocação

Caso bem estudado de sincretismo entre elementos indígenas e a sereia ibérica, com narrativas de advertência ancoradas em pontos precisos de rio.

Origem e documentação

A pesquisa folclórica brasileira, de Couto de Magalhães a Câmara Cascudo, documenta a formação dessa figura a partir de elementos indígenas combinados com a sereia ibérica trazida pela colonização. É um caso bem estudado de sincretismo narrativo.

Narrativa principal

As narrativas seguem um padrão estável: alguém ouve canto ou vê uma figura junto à água ao anoitecer, aproxima-se e desaparece; quando reaparece, volta alterado, calado ou adoecido. A função social é de advertência sobre o rio, e os relatos costumam vir ancorados em pontos precisos — determinado igarapé, determinado poço.

Variantes e divergências entre fontes

  • Em algumas regiões é descrita com cauda de peixe; em outras, com forma inteiramente humana.
  • Há versões em que é a mãe protetora das águas, não uma ameaça.
  • O nome mãe-d’água é usado, em certas áreas, para figura distinta.

Fontes desta posição

  • José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, 1876. Compilação de narrativas em nheengatu com tradução.
  • João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense, Rio de Janeiro, 1890.
  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).

6º lugar: Boto encantado

Também grafado boto cor-de-rosa dos relatos e boto namorador

Brasileira Águas interiores Séc. XIX

Narrativa amazônica segundo a qual o boto assume forma humana em festas ribeirinhas e desaparece antes do amanhecer.

Motivo da colocação

Padrão narrativo extremamente estável, função social identificável nas comunidades ribeirinhas e conjunto de proibições práticas associadas.

Origem e documentação

Documentada na pesquisa folclórica amazônica desde o século XIX. As narrativas cumprem função social identificável nas comunidades ribeirinhas, sendo frequentemente invocadas para explicar paternidades não declaradas.

Narrativa principal

O padrão narrativo é constante: um forasteiro bem-vestido de chapéu chega à festa, dança, e quem observa nota que não retira o chapéu — porque esconderia o orifício respiratório. Ao fim da noite, retorna à água. As proibições associadas, como não matar botos e não comer sua carne, integram o mesmo conjunto de normas locais.

Variantes e divergências entre fontes

  • Em algumas versões a figura é feminina e atrai pescadores.
  • A cor rosada é elemento das versões modernas; relatos antigos não a enfatizam.
  • Certas comunidades associam a narrativa a práticas de cura e a objetos ditos de encantaria.

Fontes desta posição

  • João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense, Rio de Janeiro, 1890.
  • José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, 1876. Compilação de narrativas em nheengatu com tradução.
  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).

7º lugar: Mula sem cabeça

Também grafado Burrinha de fogo

Brasileira Terrestre Séc. XIX

Mula que aparece à noite lançando fogo pelo pescoço, explicada nas narrativas como castigo por transgressão religiosa.

Motivo da colocação

Raiz ibérica reelaborada em chave de punição religiosa, articulada ao calendário católico e a práticas de proteção bem registradas.

Origem e documentação

A figura tem raízes ibéricas e foi reelaborada no Brasil rural em chave de punição moral e religiosa, articulada ao calendário católico.

Narrativa principal

As narrativas relatam aparições noturnas em estradas e imediações de povoados, com ruído de cascos e fogo visível. A explicação corrente é a de transformação imposta a quem cometeu certa falta, com duração e condições de desencanto que variam. As regras de proteção envolvem terço, objetos bentos e recolhimento em datas específicas.

Variantes e divergências entre fontes

  • A falta que origina a transformação varia conforme a região.
  • Em algumas versões o desencanto é possível; em outras, permanente.

Fontes desta posição

  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).

8º lugar: Lobisomem brasileiro

Também grafado lubisomem e jaguaraçu em variantes regionais

Brasileira Terrestre Séc. XIX

Homem que se transforma em animal em noites determinadas, versão brasileira de tradição ibérica adaptada ao ambiente rural do país.

Motivo da colocação

Esqueleto narrativo estável em todo o país, com o animal da transformação variando conforme a fauna local.

Origem e documentação

Chegou com a colonização portuguesa e se reorganizou em torno de elementos locais: a sétima posição entre irmãos, dias específicos da semana e encruzilhadas como lugar de transformação.

Narrativa principal

As narrativas seguem regras precisas: quem é o sétimo filho homem, a noite em que ocorre a transformação, o lugar onde deixa as roupas, o que deve ser feito para quebrar o ciclo. O animal muda com a região — cão, porco, onça —, mas o esqueleto narrativo permanece estável em todo o país.

Variantes e divergências entre fontes

  • O animal da transformação varia conforme a fauna local.
  • Algumas versões exigem ferimento com arma específica para desfazer o encanto.
  • Há variantes femininas em certas regiões.

Fontes desta posição

  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).

9º lugar: Caipora

Também grafado Caapora

Brasileira Terrestre Séc. XIX

Figura das matas brasileiras associada à sorte e ao azar na caça, frequentemente descrita montada em porco-do-mato.

Motivo da colocação

Relação de negociação e não de combate, com oferendas de fumo registradas, e origem do termo "caiporismo" no português do Brasil.

Origem e documentação

Seu nome, de origem tupi, é associado à ideia de "morador do mato". A documentação sistemática é folclórica, e Cascudo registra a sobreposição parcial com o Curupira em várias regiões.

Narrativa principal

As narrativas a apresentam decidindo o êxito da caçada: quem a agrada obtém fartura, quem a desrespeita sai de mãos vazias ou se perde. A relação é de negociação, não de combate — oferendas de fumo aparecem com frequência. Daí vem, no português do Brasil, o uso de "caiporismo" para má sorte persistente.

Variantes e divergências entre fontes

  • Aparece como figura masculina, feminina ou indefinida segundo a região.
  • Em certas áreas é descrita de baixa estatura; em outras, alta e magra.

Fontes desta posição

  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).
  • José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, 1876. Compilação de narrativas em nheengatu com tradução.

10º lugar: Anhangá

Também grafado Anhanga e Anhangá-piri

Brasileira Terrestre Séc. XVI

Entidade registrada em fontes coloniais brasileiras como espírito das matas capaz de assumir formas animais, sobretudo de veado.

Motivo da colocação

Registrado no século XVI por missionários que o interpretaram em chave cristã, distorção hoje reconhecida pelos estudos de etnologia.

Origem e documentação

Os missionários do século XVI registraram o termo e o interpretaram em chave cristã, aproximando-o do demônio — leitura que os estudos posteriores identificam como distorção do sentido original nas culturas tupis.

Narrativa principal

As narrativas folclóricas o apresentam como protetor da caça, especialmente de fêmeas com filhotes, aparecendo como veado de olhos de fogo para afastar caçadores. Como no caso do Curupira, a figura codifica limites para a caça, e o encontro serve de advertência mais que de ataque.

Variantes e divergências entre fontes

  • A tradução missionária por "diabo" é considerada imprecisa pelos estudos de etnologia.
  • A forma de veado é a mais frequente, mas há variantes com outros animais.

Fontes desta posição

  • José de Anchieta, Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões, edições da Academia Brasileira de Letras e da Itatiaia, séc. XVI.
  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, 1876. Compilação de narrativas em nheengatu com tradução.
  • Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Acervo e publicações, Universidade de São Paulo, consulta contínua. Acervo

11º lugar: Ipupiara

Também grafado Igpupiara, Hipupiará e homem marinho

Brasileira MarítimoÁguas interiores Séc. XVI

Criatura das águas registrada em relatos coloniais brasileiros do século XVI, descrita como habitante de foz de rios e enseadas que atacaria pessoas na água.

Motivo da colocação

A criatura brasileira com registro escrito mais antigo, em cartas de Anchieta e na crônica de Gândavo, com local e testemunho identificados.

Origem e documentação

É a criatura aquática brasileira com registro escrito mais antigo: aparece em cartas de José de Anchieta e na crônica de Pero de Magalhães Gândavo, que a apresenta como "monstro marinho" da capitania da Bahia. O nome vem do tupi e foi grafado de várias formas pelos cronistas.

Narrativa principal

Os relatos coloniais descrevem encontros em praias e barras de rio, com a criatura atacando quem estivesse na água. Gândavo narra um episódio ocorrido na Bahia com detalhes de local e testemunho, no estilo das crônicas do período. Esses textos combinam informação indígena, interpretação europeia de monstro marinho e interesse administrativo pela terra — não devem ser lidos como descrição zoológica.

Variantes e divergências entre fontes

  • A grafia varia entre os cronistas: Igpupiara, Ipupiara, Hipupiará.
  • Parte das tradições posteriores aproxima a figura da Iara, com deslocamento do caráter agressivo para o de encantamento.
  • Há variantes que a situam em rios do interior, não no litoral.

Recepção posterior

É peça central para entender como o imaginário marítimo europeu do século XVI se combinou a tradições indígenas na documentação sobre o Brasil.

Fontes desta posição

  • Pero de Magalhães Gândavo, Tratado da Terra do Brasil / História da Província Santa Cruz, Lisboa; edições fac-similares brasileiras, 1576.
  • José de Anchieta, Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões, edições da Academia Brasileira de Letras e da Itatiaia, séc. XVI.
  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).
  • Biblioteca Nacional (Brasil), Biblioteca Nacional Digital, acervo digital, consulta contínua. Acervo

12º lugar: Mapinguari

Também grafado Mapinguary e Capelobo em algumas áreas

Brasileira Terrestre Séc. XX

Criatura das matas amazônicas descrita nos relatos como grande, malcheirosa e de couro impenetrável, temida por seringueiros e caçadores.

Motivo da colocação

Tradição amazônica viva com forte circulação entre seringueiros, em que odor e grito precedem qualquer visão da criatura.

Origem e documentação

Documentada pela pesquisa folclórica amazônica no século XX, com forte circulação entre seringueiros. As descrições variam muito, o que é típico de tradições vivas de transmissão oral.

Narrativa principal

Os relatos enfatizam o odor insuportável que anuncia sua presença, o grito ouvido a distância e a resistência a tiros. Aparece como explicação para acidentes, desaparecimentos e sons não identificados na floresta. É tratada aqui como narrativa folclórica, sem qualquer pretensão de corresponder a um animal.

Variantes e divergências entre fontes

  • Descrições divergem quanto ao número de olhos, ao tamanho e à presença de boca no abdômen.
  • Em algumas regiões o nome designa criatura muito diferente, próxima do Capelobo maranhense.

Fontes desta posição

  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).

13º lugar: Cuca

Também grafado Coca

Brasileira Terrestre Séc. XIX

Figura usada para assustar crianças, associada às cantigas de ninar e derivada da Coca ibérica.

Motivo da colocação

Difusão nacional altíssima por meio das cantigas de ninar, apesar de quase nenhuma elaboração narrativa nas fontes folclóricas.

Origem e documentação

Vem da tradição ibérica da Coca, presente em procissões e cantigas portuguesas, reelaborada no Brasil como personagem doméstico de advertência infantil.

Narrativa principal

Circula sobretudo pela cantiga que ameaça a criança que não dorme. Não tem ciclo narrativo próprio nas fontes folclóricas: é figura de função pedagógica e doméstica, o que explica sua enorme difusão apesar da pouca elaboração mítica.

Variantes e divergências entre fontes

  • Em Portugal a Coca aparece como figura draconiana em procissões, sentido perdido no Brasil.
  • A aparência de jacaré ou lagarto é consolidação brasileira recente.

Fontes desta posição

  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).

14º lugar: Matinta Perera

Também grafado Matintaperera e Matinta

Brasileira Aéreo Séc. XIX – XX

Figura amazônica que se transforma em ave noturna e assobia junto às casas, cobrando tabaco ou café de quem a atende.

Motivo da colocação

Estrutura de revelação social muito bem documentada no Pará: o assobio, a promessa de fumo e a identificação da pessoa no dia seguinte.

Origem e documentação

Tradição amazônica com forte presença no Pará, documentada pela pesquisa folclórica. Liga-se ao repertório de figuras que transitam entre pessoa conhecida da comunidade e forma animal.

Narrativa principal

O padrão narrativo é preciso: ouve-se o assobio no telhado à noite, alguém responde prometendo fumo ou café, e no dia seguinte uma pessoa da vizinhança aparece pedindo exatamente aquilo. A revelação social — descobrir quem é — é o núcleo da história, mais que qualquer ameaça física.

Variantes e divergências entre fontes

  • Em algumas versões a transformação é voluntária; em outras, herdada.
  • A ave associada varia por localidade.

Fontes desta posição

  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).
  • João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense, Rio de Janeiro, 1890.

15º lugar: Cabeça de Cuia

Também grafado Crispim

Brasileira Águas interiores Séc. XIX – XX

Figura das águas do rio Parnaíba, descrita como homem de cabeça desproporcional que arrasta banhistas, em narrativa de castigo por matricídio.

Motivo da colocação

Ancoragem geográfica estreitíssima em um trecho do rio Parnaíba, com narrativa de castigo bem estruturada e identidade regional marcada.

Origem e documentação

Tradição fortemente localizada, ligada a um trecho específico do rio na região de Teresina. É um dos exemplos mais claros de criatura brasileira com ancoragem geográfica estreita e identidade regional marcada.

Narrativa principal

A narrativa conta que um pescador chamado Crispim, em acesso de raiva, feriu a própria mãe, e a maldição dela o condenou a habitar o rio com a cabeça deformada. Para libertar-se, precisaria completar um número de vítimas com nomes coincidentes, condição que prolonga indefinidamente o castigo. Períodos do ano são associados localmente a maior risco.

Variantes e divergências entre fontes

  • O número exato de vítimas necessárias varia entre as versões.
  • Algumas versões ligam a figura à época de cheia do rio.

Fontes desta posição

  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).

16º lugar: Pisadeira

Brasileira Terrestre Séc. XX

Figura noturna do folclore do Sudeste que pisa sobre o peito de quem dorme de barriga cheia, impedindo o movimento.

Motivo da colocação

A figura brasileira mais próxima da experiência corporal do leitor: explica a paralisia ao acordar, condição que outras culturas também personificaram, e vem acompanhada de medidas preventivas puramente domésticas.

Origem e documentação

Faz parte do conjunto de figuras associadas à experiência de paralisia ao acordar, presente em muitas culturas com nomes diferentes. Cascudo registra a versão brasileira e seus detalhes domésticos.

Narrativa principal

Descrita como mulher magra de unhas longas que espera nos telhados e desce quando alguém dorme logo depois de comer muito. A vítima acorda consciente e sem conseguir mover-se nem falar. As medidas de prevenção registradas são domésticas: dormir de lado, esperar antes de deitar.

Variantes e divergências entre fontes

  • Nomes e detalhes físicos variam entre estados.
  • Em algumas regiões é associada a outras figuras noturnas do repertório local.

Fontes desta posição

  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).
Quadro comparativo

Todas as notas em uma tabela

A mesma informação das posições acima, reunida para leitura rápida. A última coluna é a média ponderada pelos pesos declarados.

Notas por critério de cada posição do ranking
# Criatura Relevância Narrativas Alcance Antiguidade Influência Índice
Curupira 9,5 9,0 9,0 9,0 8,0 90,0
Saci 10,0 9,0 9,0 5,0 8,0 85,5
Boitatá 8,5 8,0 8,5 9,0 7,5 83,3
Cobra Grande 9,5 9,5 7,5 5,5 7,5 82,0
Iara 9,5 9,0 8,0 5,5 7,5 82,0
Boto encantado 9,5 9,5 7,0 5,0 7,0 79,5
Mula sem cabeça 9,0 8,5 8,5 5,0 7,0 79,0
Lobisomem brasileiro 8,5 8,5 8,5 5,0 7,0 77,5
Caipora 8,5 8,0 7,5 5,5 7,0 75,3
10º Anhangá 7,5 7,0 6,5 9,0 6,5 72,8
11º Ipupiara 7,0 7,0 5,0 9,5 7,0 69,8
12º Mapinguari 8,5 8,0 6,0 3,5 5,5 67,0
13º Cuca 8,0 5,0 8,0 5,0 6,0 66,5
14º Matinta Perera 8,0 8,5 5,5 4,5 5,0 66,3
15º Cabeça de Cuia 8,0 8,5 4,0 4,5 5,0 63,3
16º Pisadeira 7,5 7,0 5,5 4,0 5,0 61,0
Bibliografia

Fontes citadas neste ranking

Reunião de todas as obras indicadas nas posições acima. A lista completa do acervo está em fontes.

  • Biblioteca Nacional (Brasil), Biblioteca Nacional Digital, acervo digital, consulta contínua. Acervo
  • José Vieira Couto de Magalhães, O Selvagem, Rio de Janeiro, 1876. Compilação de narrativas em nheengatu com tradução.
  • José de Anchieta, Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões, edições da Academia Brasileira de Letras e da Itatiaia, séc. XVI.
  • João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense, Rio de Janeiro, 1890.
  • Luís da Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, Global Editora, 1954 (1ª ed.).
  • Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos Mitos Brasileiros, Global Editora, 1947 (1ª ed.).
  • Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Acervo e publicações, Universidade de São Paulo, consulta contínua. Acervo
  • Pero de Magalhães Gândavo, Tratado da Terra do Brasil / História da Província Santa Cruz, Lisboa; edições fac-similares brasileiras, 1576.
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